A
elaboração e a seleção do
material didático constituem procedimentos estratégicos
que exigem cuidado e responsabilidade para que sejam potencializados
os recursos financeiros e os esforços de concepção
e de disponibilização. Na educação
presencial, o material didático é um recurso
de apoio à ação do professor, podendo,
inclusive, ser suprimido quando necessário. Na
educação a distância ele assume o
papel de principal canal de comunicação
com o aluno, confundindo-se com a própria estrutura
do curso. Considere, por exemplo, o caso deste curso que
você está fazendo, veiculado por meio de
material didático impresso, especialmente concebido
para esta situação de ensino e de aprendizagem,
de material telemático (via Internet) e de uma
mídia digital (o CD-ROM). O material didático
empregado, além de veicular os diferentes conteúdos
e de estruturar as interações entre professores
e alunos, dá forma ao curso propriamente dito,
impondo-lhe um ritmo e um modo de funcionamento que seria
totalmente diferente se o elemento mediador fosse, por
exemplo, uma emissão radiofônica ou um sítio
educativo.
Nas
últimas décadas, uma grande quantidade de
conhecimento foi disponibilizada para que o formador planeje,
execute, gerencie e avalie suas intervenções
didáticas em geral. As ciências cognitivas
contribuíram significativamente para o avanço
desses conhecimentos e, no caso particular da Psicologia
Cognitiva, diferentes pesquisas foram realizadas para
avaliar sua pertinência e aplicabilidade em situações
de ensino e de aprendizagem.
Uma
importante conclusão de tais pesquisas, aplicável
à questão da elaboração do
material didático para educação a
distância, diz respeito à sua principal função:
instigar o aluno "geograficamente distanciado"
a interagir ativa e autonomamente com novos conhecimentos,
relacionando-os com conhecimentos já obtidos, integrando-os
à sua "bagagem" cognitiva e elevando-os
ao status de saberes, armazenando-os em sua memória
de longo prazo.
O
material didático assim concebido é, além
de um veículo de comunicação de conhecimentos,
um recurso estratégico para instigar aprendizagens
significativas e permanentes, para facilitar tanto as
atividades de ensino quanto as de aprendizagem, devendo
necessariamente ser dimensionado para reduzir ao máximo
o esforço cognitivo do aluno com relação
às interfaces físicas da relação
educativa, para que ele possa se concentrar e usufruir
ao máximo de suas interfaces cognitivas. O formador
tem, portanto, um compromisso inegociável com a
seleção de recursos de apoio que contribuam
para a organização de um trabalho pedagógico
sério, compromissado tanto com o processo quanto
com o produto, voltado para uma formação
crítica e contextualizada. O material didático,
assim dimensionado, tem diversas funções,
entre as quais citamos:
1.
Favorecer aprendizagens ativas e construtivas;
2.
Proporcionar o estabelecimento de elos entre informações
e conhecimentos;
3.
Apoiar uma organização constante dos
conhecimentos;
4.
Incitar o trabalho no nível cognitivo e metacognitivo;
5.
Articular conhecimentos declarativos, condicionais
e relativos a procedimentos.
Segundo
a Psicologia Cognitiva, o aluno constrói ativamente
o saber. Além disso, como todo ser humano que está
constantemente em contato com novas informações,
avança de modo gradual na construção
de saberes, processando informações novas
a partir de conhecimentos anteriores. As novas informações
são, portanto, relacionadas com o que o indivíduo
já sabe e integradas em uma rede de conhecimentos
na chamada memória de longo prazo. Tal processo
pode resultar em uma integração definitiva
das novas informações sob a forma de saberes
ou em uma rejeição das mesmas à medida
que elas venham contradizer o que já se sabe de
modo mais alicerçado. Nesse contexto, o material
didático tem um papel importante, facilitando as
interações do sujeito com as informações
que lhe são apresentadas e estruturando a negociação
cognitiva que ocorre freqüentemente entre a informação
e o conhecimento.
Comentário
Observe
que estabelecemos uma distinção fundamental
entre informação e conhecimento, uma vez
que consideramos o conhecimento a informação
processada pelo indivíduo e integrada à
sua memória sob a forma de saber.
Mas,
de que negociação estamos falando? A negociação
cognitiva ocorre quando uma nova informação
submetida ao aluno é contraditória em relação
ao que ele já sabe, ou irrefutável, ou inovadora,
ou por demais contundente. O aluno processa, então,
a nova informação, procurando entendê-la
e fazendo dela um objeto de interação, procedimento
que pode resultar na integração da nova
informação aos conhecimentos já detidos
ou em sua rejeição. Vejamos um exemplo.
Imaginemos o esforço cognitivo que um indivíduo
tem que fazer quando seus conhecimentos o orientam no
sentido de que os bebês são trazidos pela
cegonha, e, em contraposição, o material
didático com o qual ele interage afirma que os
bebês são, na verdade, gerados no útero
materno após a junção de gametas
sexuais masculino e feminino. No nível cognitivo,
o indivíduo tem, então, que comparar a informação
nova e o conhecimento já detido para construir
conhecimentos inéditos forçosamente orientados
na direção do saber coletivo sobre a fecundação.
É então que ocorre a negociação
cognitiva, em que o indivíduo é submetido
a elementos de convencimento tais como textos didáticos,
informações científicas, imagens
fixas ou em movimento e atividades teóricas e empíricas.
Nesse sentido, o poder de negociação do
formador é alicerçado não apenas
em sua "bagagem" teórica e em sua experiência
profissional, mas também no material didático
selecionado para dinamizar a relação educativa,
para auxiliar a instigar o aluno, fazendo com que ele
interaja, questione, reconstrua e aprenda. Paralelamente,
no contexto de situações de educação
a distância, em que o aluno tem uma grande autonomia
interativa, o papel do material didático é
fundamental.
De
fato, em situações de educação
presencial, a negociação cognitiva pode
ser bastante dinamizada, tanto por meio de estímulos
sucessivos por parte do professor quanto pela dinâmica
do trabalho pedagógico colaborativo. No entanto,
quando se trata de situações de educação
a distância, aluno e formador estão distanciados
e o contato entre ambos fundamenta-se no material didático
que o formador elabora ou seleciona. O material tem, então,
que assumir totalmente as funções do professor
em sala de aula, propondo exemplos, captando a atenção
do aluno, ativando seus conhecimentos anteriores, incitando-o
a confrontar informações e conhecimentos,
estimulando-o a persistir e a avançar na direção
dos objetivos de aprendizagem inicialmente previstos.
O
material didático tem que ser situado em uma dimensão
estratégica,
em que a escolha e o planejamento de atividades contribuam
efetivamente para que o aluno interaja de modo dinâmico
com o que lhe é proposto, avançando particularmente
na direção da reutilização
dos conhecimentos adquiridos, isto é, na transferência
de uma situação para outra. Esse último
aspecto é de fundamental importância no contexto
do ensino estratégico, tanto presencial quanto
a distância, tendo em vista que seria pouco útil
ou significativo para o aluno adquirir conhecimentos inertes
que não lhe serviriam para uma reutilização
funcional em outras situações, em outras
tarefas e em outros contextos.
O
formador e o material didático que ele elege para
apoiar a intervenção pedagógica a
distância têm, então, de se ajustar
a uma dinâmica de ensino estratégico, cuja
definição é apresentada a seguir.
Comentário
Uma
das principais características da sociedade contemporânea
globalizada é o acesso rápido e fácil
à informação. Até a metade
do século XX, a escola era vista como o lugar por
excelência onde os indivíduos iam para
acessar informações, adquirir conhecimento.
Atualmente, o conhecimento está cada dia mais disponível
a todos. Nessa perspectiva, a escola como repassadora
de conhecimento perde sua função social.
Então, qual a função social da escola
na atualidade? Cabe à escola, na atualidade, trabalhar
os conteúdos de forma significativa, de tal modo
que crie condições para que os indivíduos
se tornem gestores da informação, capazes
de gerenciar os conhecimentos de forma crítica
e criativa, de selecioná-los e aplicá-los,
conscientemente, e de destacar do universo de informações
disponíveis as que lhe são pertinentes.
Uma
concepção de ensino estratégico e
o papel do material didático
A
Psicologia Cognitiva é um campo de conhecimento
fundamentado no estudo, na análise e na compreensão
do processo de aprendizagem no ser humano. Tendo em vista
que a aprendizagem é fundamentalmente um processo
de tratamento de informações, acreditamos
que os conhecimentos formulados por esse campo possam
contribuir de maneira substantiva para embasar procedimentos
de concepção e de seleção
de material didático, cuja função
principal é justamente subsidiar o aluno em seu
processo individual e coletivo de tratamento de informações,
levando-o a consolidá-las sob a forma de saberes
a serem manipulados em nível abstrato, o mais longamente
possível. A Psicologia Cognitiva insiste na idéia
de que a tarefa de ensinar é muito mais complexa
do que a simples transmissão de um conteúdo
definido em um programa de estudos. O formador deve não
somente intervir no conteúdo, adequando-o à
sua clientela, mas também desenvolver estratégias
cognitivas e metacognitivas eficientes para permitir que
o aluno interaja de modo significativo com o conteúdo
proposto.
Mas
o que significa interagir significativamente com
um conteúdo pedagógico? Tal interação
implica em que o aluno proceda constantemente a uma integração
do conteúdo proposto com os conhecimentos já
estabelecidos e a uma integração consciente
dos conhecimentos novos em sua memória de longo
prazo. Essa definição é crucial para
que possamos entender as diferentes dimensões do
ensino estratégico, que deve explicitar preocupações
tanto com a pertinência, o sentido e a validade
dos conteúdos pedagógicos quanto com a seleção
de estratégias didáticas capazes de facilitar
a aprendizagem de tais conteúdos.
Igualmente,
o ensino estratégico, no contexto da educação
a distância, implica o estabelecimento de um equilíbrio
delicado entre o tipo de apoio que o aluno necessitará,
para tratar adequadamente as informações,
e a autonomia que lhe é oferecida para interagir
livremente com os conteúdos. Esse último
aspecto constitui, aliás, uma das molas mestras
tanto da educação a distância quanto
do ensino estratégico. A sociedade atual exige
cada vez mais que a pessoa esteja em movimento constante
de contato com novas informações, de aquisição
de conhecimentos, de tomada de decisões, etc. O
cidadão da sociedade da informação
necessitará, em grau muito maior do que o atual,
ser autônomo em seus procedimentos de aprendizagem
e de tratamento de informações.
Leitura
O
conceito de sociedade da informação é
abordado por Adam Schaff em A Sociedade Informática,
publicado pela Editora da Unesp. Trata-se de um conceito
interessante e atual que merece a sua atenção,
assim como a de todo educador.
A
sociedade futura certamente exigirá que a pessoa
esteja em permanente situação de formação,
tendo em vista que os conhecimentos tenderão a
ser constantemente reformulados, revisitados, reestruturados,
sendo muito mais efêmeros do que atualmente. Nesse
contexto, é imperioso que os sistemas de ensino
contribuam para que o aluno desenvolva estratégias
que o permitam interagir independentemente com novas informações,
relacioná-las com seus conhecimentos anteriores,
integrá-las à sua memória de longo
prazo e, sobretudo, reutilizá-las em novas situações.
O ensino estratégico tem, então, como objetivo
fundamental, instrumentar o aluno para tratar as informações
de maneira independente e eficaz, pensar de modo autônomo,
aprender constantemente.