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Considerações sobre meios e materiais didáticos

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  Ao atuar como formador de multiplicadores, você pode adotar diferentes abordagens didáticas para melhor comunicar os conhecimentos visados, motivar seus "alunos", interessá-los pelos temas e facilitar aprendizagens. Dentre diferentes possibilidades de trabalho, com relação às quais você tem total liberdade de escolha, apontamos a Pedagogia de Programas como uma metodologia de intervenção interessante e promissora, tendo em vista a natureza do programa SESI Empresa & Família — Qualidade de Vida, a clientela a que se destina e as condições de seu desenvolvimento.

  Trata-se de uma estratégia didática, que procura instigar a construção de conhecimentos através do desenvolvimento de programas definidos pelos alunos, sobre temas variados e fundamentalmente relacionados com interesses dos próprios alunos. Embora a chamada "pedagogia dos programas" possa ser viabilizada por diferentes meios e métodos, concentraremos nossa atenção nas possibilidades de desenvolvimento de programas com o emprego do computador e das estratégias da informática educativa, um meio privilegiado para a formação continuada em meios de trabalho.

  A pedagogia dos programas é uma abordagem que pretende superar algumas limitações das relações educativas tradicionais, quais sejam: a falta de interdisciplinaridade, a postura passiva do aluno no processo de aprendizagem, a indiferença ou desinteresse pelas matérias que não parecem ligadas à realidade do aluno e a impossibilidade de permitir ritmos diferentes de aprendizagem em grupos naturalmente heterogêneos.

  Um programa articula-se em torno de um determinado eixo temático, que pode ser uma pergunta ou conjunto de perguntas significativas para o grupo, a definição de um conceito ou um problema colocado. O seu desenvolvimento supera, assim, os limites de uma matéria e cria um ambiente estimulador da construção do conhecimento a partir da coleta, tratamento e articulação das informações oriundas de diversas disciplinas e contextos.

  As relações educativas tradicionais funcionam de acordo com a dinâmica estabelecida pela sociedade industrial. Em geral, os alunos são rigorosamente submetidos aos mesmos conteúdos, padronizados por currículos pouco dinâmicos, onde o conhecimento é dicotomizado em pedaços estanques. A padronização é a palavra-chave da escola tradicional, na qual os alunos são avaliados pelos mesmos métodos, geralmente somativos, ao mesmo tempo e em função dos mesmos resultados. Nessa escola, a proposta de trabalho é, via de regra, delimitada pelo formador, que independentemente do perfil cognitivo e sócio-afetivo de seus alunos antecipa tudo o que eles devem saber, o ritmo segundo o qual eles devem progredir e os conteúdos com os quais eles deverão lidar. Nessa dinâmica, o objetivo é conduzir todos os alunos aos mesmos patamares de "qualidade" e de "performance", considerados adequados de acordo com as diferentes séries e níveis de ensino. Desse modo, o professor pensa pelo aluno, antecipa o que ele deve saber, define os problemas que ele deve resolver, os objetivos a serem atingidos, as estratégias a serem empregadas e as soluções a serem encontradas. Qualquer desvio da norma tende a ser considerado como problemático e perturbador da ordem estabelecida, ordem essa em que o professor tem um estatuto definido de líder, de detentor de saberes, de responsável principal pelo andamento do processo educativo; e em que o aluno é percebido como uma "tábula rasa", que depende dos estímulos do professor para motivar-se, interessar-se e adquirir conhecimentos disponibilizados em doses homeopáticas.

  Na pedagogia tradicional os conteúdos são dispostos obedecendo a uma ordem seqüencial arbitrária e universal. Os conceitos obedecem a um hierarquia padronizada, do mais simples para o mais complexo, seguindo uma linearidade que tem como exigência o pré-requisito, ou seja, o indivíduo só está apto a aprender um determinado conceito se ele já aprendeu os conceitos definidos como anteriores àquele. Nesse modelo, o professor não precisa se preocupar com os conhecimentos prévios dos alunos, com elementos de natureza sóciocultural, econômica, política, uma vez que, sob quaisquer circunstâncias, seu roteiro já está definido, e, via de regra, o livro didático se comporta como o seu parceiro indissociável, ocupando uma posição exclusiva no mundo dos recursos pedagógicos.

  Com o advento da sociedade tecnológica e a disseminação em larga escala da informação, esse modelo da escola tradicional está em franco processo de implosão. Os alunos, mais do que nunca, têm acesso a um número ilimitado de conhecimentos em todas as situações do quotidiano, independentemente da intervenção do professor. A escola deixa de ser o locus privilegiado onde ocorre a aprendizagem, que agora pode ser viabilizada em toda parte, através de diferentes meios e recursos, no ambiente escolar e, principalmente, fora dele. O professor é imediatamente compelido a redimensionar o seu papel, que doravante deve ser articulado em torno da atribuição de sentidos, da mediação, da construção conjunta de conhecimentos em uma dinâmica onde ambos, docente e discente, têm responsabilidades e contribuições significativas e essenciais para fundamentar as atividades de ensino e para facilitar as aprendizagens.

  As relações educativas, em uma perspectiva mais contemporânea, exigem um novo modelo de intervenção pedagógica que valorize a autonomia, a interdisciplinaridade, a criatividade, a diferença e o investimento de saberes individuais na construção do conhecimento coletivo. Mais do que nunca, é evidente que uma questão ou um problema apresentados pelo professor podem não representar situações problemáticas para o aluno, que passa a ter o estatuto de ser pensante, que constrói conhecimentos na independência das diretivas do professor, que precisa ser valorizado enquanto ator, agente e mediador de seus próprios processos cognitivos, que vem para a escola já imbuído de saberes, a maior parte deles bastante elaborados.

  Entre as diversas vias de trabalho apontadas por pesquisadores do campo educacional, a pedagogia dos programas surge como uma proposta capaz de valorizar ao máximo a livre iniciativa dos alunos, sua autonomia, sua própria busca de soluções para as situações-problema que lhe são apresentadas pelo professor ou que são descobertas por eles próprios. No trabalho, sob a forma de programas, espera-se que professores e estudantes possam engajar-se numa verdadeira colaboração intelectual, investir seu potencial cognitivo na abordagem de situações inéditas, inusitadas, partilhar a compreensão dos problemas e a experiência de descobrir novas soluções, não necessariamente condizentes com as soluções propostas pelo professor, papel desempenhado pelo monitor.

  A estratégia da pedagogia dos programas possibilita aos estudantes aprender com os professores e os pares, desfrutar de seu conhecimento e experiência, mas sobretudo ultrapassar tais conhecimentos e experiências e estabelecer elos fortes entre saberes individuais e coletivos, construídos em uma via de mão dupla, onde a criatividade, a livre iniciativa e a perseverança são palavras de ordem. Tal estratégia didática oferece também um espaço privilegiado para que os alunos percebam a si próprios como atores importantes do processo de construção de conhecimentos, levando-os a posicionarem-se criticamente com relação a informações que lhes são disponibilizadas desprovidas de critério, de sentido, de pertinência e de validade, adjetivos que só podem ser atribuídos pelo sujeito em aprendizagem, em um processo eminentemente intrínseco de estabelecimento de relações entre conhecimentos já adquiridos e conhecimentos novos. Para facilitar tal processo, a pedagogia dos programas é uma estratégia incontestável.

  Mas, em que consiste a pedagogia de programas? O programa deve ter uma origem coletiva, mas o professor pode adotar várias estratégias pedagógicas para conduzir a escolha do programa a ser trabalhado por uma classe. Mesmo com um tema curricular predeterminado e que defina um eixo temático que se quer seguir, a definição do programa pode ser conduzida a partir da leitura de um texto, de uma notícia, de uma reportagem ou de uma escolha de opções colocadas e discutidas com os alunos.

  A pedagogia dos programas consiste em um conjunto de etapas que começa com a escolha do tema, seguido da coleta e tratamento das informações, a construção, consolidação e articulação dos conceitos, uma síntese dos aspectos tratados no programa, e a avaliação. Cada uma dessas etapas requer uma dinâmica própria com papéis bem definidos para o professor e para os alunos, e que deve resultar na construção de um conhecimento integrado sobre o tema pretendido. Estabelecer a dinâmica de cada uma dessas etapas é um grande desafio para o professor, e dela depende o sucesso dessa abordagem. O computador e uma biblioteca de softwares educacionais — tais como enciclopédias, simuladores, dicionários, bancos de notícias e reportagens com recursos de pesquisa indexados por assunto e palavra, com navegação por hipertexto e acesso à Internet – podem representar um importante recurso na fase de busca e tratamento de informações.

  Acreditamos que, no contexto dos diferentes temas do programa SESI Empresa & Família — Qualidade de Vida, a pedagogia de programas oferece um espaço de trabalho privilegiado para os monitores. Mas o sucesso da estratégia depende essencialmente do envolvimento dos alunos na resolução dos problemas e no desenvolvimento dos programas que lhes são propostos. Há, então, um componente fundamental dessa estratégia, que é condição para o seu desenvolvimento, e que, isso sim, depende muito da intervenção do professor: gerar nos alunos interesse, motivação e necessidade cognitiva com relação aos conhecimentos a serem trabalhados no contexto dos problemas e dos programas.